domingo, 1 de novembro de 2009

A Saga de um Porre








"O bar já tinha fechado quando todo mundo se despediu pela décima vez e foi embora. Depois disso, me lembro de ser embalado de um lado para o outro, já dentro do táxi. Dias depois, o taxista me contou que antes de entrar no carro, me viu parado, em pé, na calçada do bar fechado. Eu estava com a cabeça balançando como um pêndulo e com olhar disperso por mais uns dez minutos, depois de meus amigos terem ido embora. Ele conta que me perguntou se eu queria táxi e eu, calado, simplesmente entrei no carro pela janela e permaneci numa posição "cirque du soleil" no banco de trás.

Daquela noite, lembro flashes. Não sei como minha mente, já baleada, retém até agora o momento em que o carro fez uma curva para a esquerda e eu olhei o relógio: 3h41. Acordei quando o táxi parou na frente de casa. Pelos trocados que restaram na minha carteira, devo ter perdido um excelente tour pela cidade.

Quando saí do carro (acho que foi pela janela de novo, já que minha barriga tá doendo até agora), ainda estava escuro. Na hora que peguei na maçaneta da porta de casa, o céu começava a clarear. Tem até lógica: devo ter ficado mais 10 minutos em pé, antes de começar a cambalear até a porta. Lá, me toquei que tinha esquecido a chave. Revistei meus bolsos e só faltei tirar a roupa pra vasculhar. Procurei até embaixo da cueca. Nada. O jeito era pular o muro.

Eu sabia que o álcool fazia mulheres ficarem mais gostosas vistosas, mas não que deixava obstáculos mais altos. Sério. O muro era um pouco mais baixo que eu mas, naquela noite, parecia ter uns três metros! Estranho que foi até fácil. A sensação é que eu fui teletransportado. Lembro de olhar para o topo do muro por uns 15 segundos e, depois, de levantar do chão, já do lado de dentro.
Daí em diante foi a parte mais difícil. Toda hora que eu levantava, parecia que alguém sacudia o chão e eu caía. A porta dos fundos hora ficava larga, hora estreitava. Olhei atentamente pra sentir o ritmo em que ela esticava e encolhia. Quando estava esticando de novo, dei um pulo do chão e tentei me jogar pra dentro de casa. Não funcionou. A porta encolheu bem na hora que eu ia passar e dei de cabeça na parede, fazendo soar um baque surdo, mas nem doeu.

Como toda hora eu voltava ao chão, como se puxassem meu tapete, achei que seria mais fácil fazer o trajeto colado nele. Com o #reptilemodeon, me arrastei e consegui entrar. A parte de dentro de casa parecia um labirinto e eu não lembrava onde era meu quarto. Escolhia aleatoriamente um caminho e dava de cara em uma parede. Tentava outro, nada. Tentava mais um e via que já havia estado lá.

Estava prestes a desistir e dormir no chão do corredor quando vi um cômodo com a porta aberta. Decidi que dormiria lá, mesmo que fosse a cama do capeta. Afinal, como minha casa nunca teve tantos cômodos assim, havia uma boa chance de eu estar entrando, de fato, no meu quarto. 

A embriaguez deve me deixar mais exigente, porque a cama estava dura e não achei meu travesseiro. Em condições normais, não me importaria em rolar numa cama de faquir abraçado a um porco-espinho como travesseiro. Quando fechei os olhos pra dormir, me sentia rodando como se estivesse numa nave espacial em gravidade zero e logo apaguei.

É tudo que lembro".




O delegado balançava a cabeça levemente em sinal de reprovação, olhar com desdém e sorriso de canto de boca. Encerrou o depoimento do Boletim de Ocorrência, na delegacia, com uma pergunta cuja resposta sabia que seria uma ingênua negação:

"Então, você não notou que dormiu na mesa da sala do vizinho. Certo?"

8 comentários:

Loro da Doca disse...

Rapaz eu acho que tu querias mesmo é dormir com teu vizinho, beber so foi desculpa

Tereza Jardim disse...

depois dizem que quem não bebe não tem história. pô, e o taxista, e o vizinho que provavelmente nem beberam? hahaha! é só ter ao menos um amigo bebum que você sempre vai ter histórias.

Karime Darwich Barra disse...

Foi com você que aconteceu isso? Está bem na foto. Conheço uma pessoa que bebeu uma garrafa de uísque no finado Lapinha; esqueceu o marido; pegou um táxi, não tinha dinheiro; discutiu com o motorista que a levou para a delagcia. Ficou jogada em um banco, na porta da delegacia (os policiais, penalizados, nem se deram ao trabalho de prender a madame), quando foi vista por um rapaz que circulava pela noite (já morreu). Ele sabioa onde a retardada morava e correu para avisar o marido da infeliz, que foi resgatá-la na delegacia. Quando chegaram em casa a louca tentou o suicídio só para se exibir e o marido chamou a família dela. Não sei como continuaram casados e no outro dia a enlouquecida não sentiu nem sequer ressaca moral. Na noite seguinte, saiu de novo, bebeu mais ainda, mas levou o dinheiro do táxi. Eu sei quem é essa daí, mas sou obrigada a preservar a identidade dela, para evitar processo judicial.

Filiblog disse...

Loro, eu nunca fiquei porre, portanto, a história não aconteceu comigo. Sinto informá-los, mas foi tudo fruto da minha imaginação.

Se não acreditarem, bem, aí eu fico extremamente lisongeado de ter sido tão convincente.

Tereza: tu tem razão, amigo de porre tem mta história. Até pq é ele q vai lembrar de tudo que aconteceu!

Karime: que honra uma nobre e assídua leitora finalmente perde a virgindade de comentários aqui! :)

Essa tua história é mt louca. Fico tentado a dizer que acho que foi contigo mesma, mas vou omitir essa minha opinião pra não te constranger eheheheh

Anônimo disse...

Não fui eu, não, a porre de minha história. Foi uma colega nossa, que senta aqui perto da gente, mas eu não posso falar o nome dela, porque ela pode me processar, pois teu blog é muito lido.
Tenho largura para contar essa história com ricos detalhes, justamente porque não foi comigo, sacou?
Mas também se fosse eu essa pinguça, não estaria nem aí, porque não sinto vergonha de nada. Sou praticamente uma sem vergonha, falou?

Karime Darwich Barra disse...

Anônimo disse...
Não fui eu, não, a porre de minha história. Foi uma colega nossa, que senta aqui perto da gente, mas eu não posso falar o nome dela, porque ela pode me processar, pois teu blog é muito lido.
Pô, esqueci de assinar. Reproduzo o comentário, devidamente assinado.
Tenho largura para contar essa história com ricos detalhes, justamente porque não foi comigo, sacou?
Mas também se fosse eu essa pinguça, não estaria nem aí, porque não sinto vergonha de nada. Sou praticamente uma sem vergonha, falou?

irmamorfina disse...

meio Kafka esse post, hein? só não curti o final :p

Cristina Faraon disse...

Que alívio você jurar que é tudo fruto da sua imaginação. continue assim: imaginação 1000, álcool zero!
Beijos!!!!