quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Tuiteiros e suas subclasses




Relutei em entrar no Twitter, primeiro porque ninguém sabia explicar o que era e para que servia. Hoje, usuário assíduo, vejo que tudo o que me falavam sobre o Twitter não tinha nada a ver com o que ele é.

Meus diálogos em torno do assunto eram algo do tipo:

- Mas qual é a graça de um troço que todo mundo escreve até 140 caracteres?
- Ah, é legal, vai entra, entra, entra!
- O Twitter parece ser um Orkut piorado, um MSN 0.2 limitado...
- É bacaaaana, tu é o único jornalista do mundo que não tem Twitter. FAZ LOGO O TEU!

Pensei "por que entrar?", "por que não entrar?" e, depois de um "somebody love", acabei fazendo meu cadastro. Mas o fator decisivo foi uma conversa com o Anderson Jorge (www.bebadogonzo.blogspot.com). "Cara, o Twitter é realmente uma bosta como tu tá achando", disse-me. Orgulhoso por estar certo, resolvi ceder para poder criticar com mais propriedade.

Depois de uns dois meses de uso contínuo desta magnífica ferramenta de microblogging (ui!), pude verificar um padrão de comportamento entre os usuários. Com base em três semanas de intensas pesquisas nas bibliotecas das universidades de Harvard, Yale e Fapan, além de entrevistas com professores de Massachusets, Fabel e Columbia Pictures (?), me sinto em condições de passar a vocês as minhas impressões.

Claro, com a devida vênia de @pedrox, o único que pode falar sobre o Twitter com verdadeira propriedade, já que criador e criatura se confundem. Sei que corro o risco de sofrer uma trovoada de nosso todopoderoso colega por falar o nome do Twitter em vão sem sua expressa autorização, mas ponho minha conta em risco. Espero sobreviver, enfim.


Que tipo de tuiteiro você é?


Já ouviram falar sobre empresas de recursos humanos que usam o Orkut como uma das fontes de informação para seleção de candidatos? Poisé. No mesmo sentido, é possível afirmar que a forma de uma pessoa tuitar fala tudo que se precisa saber sobre sua personalidade.

Psicólogos modernos com pós-doutorado em mídias-eletrônicas-sociais-inúteis são capazes de identificar, com base em três tuitadas, se a pessoa sofreu abuso sexual na infância, seu prato preferido ou a posição em que costuma dormir.

É possível fazer um mapa-astral com base naquilo que você expõe no Twitter. Suas ânsias, vontades, paixões, desejos, frescuras, boiolices, são todas impressas intrinsecamente em cada um dos 140 caracteres digitados em uma gorgeada virtual. Portanto, seu passarinho retardado, cuidado com o que você tuíta!

Confira os perfis mais frequentes identificados pelos psicólogos doutores em mídias-eletrônicas-sociais-inúteis. Importante ressaltar que um tuiteiro pode ter mais de um perfil dos listados abaixo, mas provavelmente um deles irá prevalecer.


Tuiteiro Compulsivo:

Também conhecido como Tuiteiro Narcisista, pode ser comparado ao bêbado no Karaokê, que não larga o microfone. Ele acha que é o único seguido por todos os seus followers. Por isso, se dá ao direito de metralhar caracteres malucamente. Acha que, se ficar duas horas sem tuitar, tem que compensar contando tudo o que fez nesse meio tempo - até o número de pedaços de merda que cagou na sua última visita à privada.

Uma das características do tuiteiro compulsivo é sua enorme capacidade de reunir imenso número de unfollows em poucos segundos. Tal capacidade é normalmente potencializada com uma habilidade acima da média de contar piadas sem graça e - pior - achar que todo mundo tá gostando.

Tuiteiro Vagalume

É o cara que fez seu cadastro no Twitter só por fazer e dá sinal de vida a cada três meses. Como um vagalume, hora aparece; hora some. Provavelmente entrou na onda por insistência dos amigos mas não teve a paciência de usar por uma semana direto, para sacar como a parada funciona. Inclui famosos que querem se passar por moderninhos.

Ele não se deu oportunidade ao vício mas, de vez em quando lembra "rapaz, e o Twitter, como será que tá?", e entra pra dar uma olhada e tuitar qualquer coisa. Normalmente seus únicos followers são outros Tuiteiros Vagalumes, já que pessoas normais não gastam nem meio byte seguindo múmias virtuais.

Tuiteiro Conta-gotas

Muito diferentes dos Vagalumes, os Tuiteiros Conta-gotas costumam passar o dia inteiro online, sempre dando F5 na página do Twitter pra saber o que tá rolando. A diferença é que eles são metidos a sábios e querem ser conhecidos como OS CARAS, que soltam apenas GRANDES PÉROLAS para benefício da humanidade.

Alguns são bem-humorados, outros são rabugentos. Em comum eles têm o ódio mortal a todo Tuiteiro Compulsivo. Para eles, uma tuitada deve ser sempre algo relevante em prol do progresso da comunidade nerd. Por isso, os prolixos deveriam ser banidos do sistema internetal. "Maldita inclusão digital", pensam a respeito dos demais.

Tuiteiro no Divã

É a garotinha que foi chifrada pelo namorado e vai xingá-lo para todo mundo ouvir. É o funcionário que reclama da suvaqueira do patrão. É a dona-de-casa que divide com os outros coisas como as brochada do marido, o filho que cagou-se nas calças de novo, a conta do telefone e o arroz queimando na panela.

Tuiteiro no Divã parte do princípio que seus followers são todos psicólogos pagos e prontos para ouvir suas agrúrias. O Twitter é seu muro das lamentações, seu Poço dos Desejos, seu saco de pancadas, enfim, um útil instrumento para descarga das tensões diárias.


Tuiteiro Reclamão


Não confunda com o do Divã. Nada a ver. O Reclamão não fala de si; ele mete pau nos outros (ai!). Toda música que toca é uma merda. Todo filme da Globo é bosta. "Aliás, Band, SBT, Rede TV e todas do canal fechado é tudo mesma porcaria".

Se o preço do dólar cai, algum dejeto o Governo Federal fez pra defecar nas exportações. Se o preço sobe, o governo cagão tá ferrando com a gente coitada que quer importar eletrônicos. Novela boa era Roque Santeiro e a última partida razoável de futebol da seleção brasileira foi em 1982.

O trabalho tá escroto. O estudo foi ruim. As ruas são engarrafadas e esburacadas. A cidade está perigosa. Tudo uma merda e não há nada de bom. TUDO É MERDA, OUVIU? Tá olhando o que? Seu follower de merda...

Tuiteiro Poeta

Inútil é a gorjeada que não suscita reflexões capazes de mudar dialeticamente a memória histórico-semântica de um povo em construção. Não acham? Nem eu. Mas o Tuiteiro Poeta tem certeza.

Na ânsia de falar bonito, acaba soltando besteiras dignas de um Vade Mecum de pérolas. A questão é que, via de regra, é gente famosa, quase-famosa ou pseudo-famosa que embarca nessa onda. Então, não importa o tamanho do paradoxo tuitado; vai sempre ter mais follower babão batendo palma do que nego dando unfollow. E a fama crescente será o gás para mais poesias semântico-contraditórias.


Tuiteiro Milton-neves

Para esses aqui, o Twitter é mais uma ferramenta para expansão da "alma de seu negócio". Em vez de se limitar a divulgar um blog recém-atualizado, o Tuiteiro Milton-neves vive apontando algum link de propaganda para alguma coisa, incluindo para sua própria vanglória.

Pode ser a festa de formatura da sala da irmã da filha da empregada que trabalha com a vizinha de sua enteada, que tá precisando de uma forcinha; ou até o pedido de uma ajuda para participar de uma promoção em que precisa de muitas indicações de amigos. A verdade é que você já sabe que sua tuitada vai ser pra pedir que você faça alguma coisa que não está nem um pouco afim de fazer - e sequer de ler.

Ainda não tive esse prazer, mas, antropologicamente falando, deve ser interessante seguir um Tuiteiro Milton-neves xiita da Herbalife...

Tuiteiro Caça-follower

Seu sonho é ser visto como uma celebridade do mundo virtual, tipo a @Twitess, que não é $%¨& nenhuma e todo mundo conhece. É mais comum entre adolescentes, ávidos por auto-afirmação.

A ideologia do Caça-follower é seguir todo mundo, na esperança de ser seguido também. Se, dentro de alguns poucos dias, não for seguido, dá unfollow e parte para a próxima.

Em vez de fazer propagandas de sites ou outras chatices, o Caça-follower cria complexas redes de amizades para tráfico de influência. Os followers são vistos como mercadorias. Entre acordos, dois caçadores se compromentem a se citar reciprocamente em um #followfriday para conseguir mais adeptos.

No final das contas, é uma suruba desgraçada de todo mundo se seguindo. O Caça-follower de repente vê sua timeline cheia de tuitadas inúteis, com origem desconhecida. Pelo menos, pode se orgulhar de ter mais de dois mil followers! Rá, morram de inveja!


Vocês conhecem quem se encaixa em algum dos casos? Digam, falem, tuitem, comentem!

sábado, 5 de setembro de 2009

A arte de não fazer




Falar é uma arte. Dizer muito e não fazer nada, um dom. E nesse sentido, somos agraciados por Deus. Aqui, vale mais quem fala muito do que quem faz pouco. Como se a palavra, por si só, fosse suficiente para alguma coisa.

Algumas das pessoas mais respeitadas no Brasil têm a língua solta. No momento em que decidem ir à prática, dificilmente sai algo melhor do que aquilo que a gente manda para o esgoto apertando um botão. A retórica é o nosso forte; até a palavra soa pomposa.

A língua presa mais solta do Brasil é a do nosso presidente Lula. Passei minha infância e adolescência aterrorizado por suas profecias político-econômicas, que invariavelmente previam o caos. Bons tempos. Pior agora, que ele conseguiu a posição para implantar uma política caótica, igual – ou pior - àquela que ele denunciava, além de nunca abandonar a retórica estabanada que o faz cometer gafes Brasil afora.

Existem também os línguas-soltas profissionais, os comentaristas de esporte. São pessoas graduadas na faculdade da vida de falar mal do trabalho dos outros sem nunca ousar tentar fazer melhor. E ai de quem tentou. O comentarista esportivo da Rede Globo, Paulo Roberto Falcão, viveu os dois lados da moeda. Logo após o fracasso da Seleção na Copa de 1990, teve uma passagem insossa como técnico da seleção brasileira.

Provavelmente foi uma época que o convenceu a passar os 19 anos seguintes - e se continuar assim, o resto da vida – apenas falando que o time dos outros deveria jogar assim ou assado. Seu ex-colega de transmissão, o ex-jogador Walter Casagrande, já foi convidado a treinar grandes times do Brasil. Ingenuidade acreditar que ele aceitaria, ainda mais com um exemplo tão claro do seu lado. E o caso do maior jogador de todos os tempos, Pelé? Assim que encerrou a carreira como jogador, passou a ser requisitado para comentar sobre quase tudo no esporte e assumir cargos importantes, mas seus momentos mais tranqüilos dos últimos 30 anos de aposentado são na função de falador e não de fazedor, embora tenha pouca habilidade em ambas.

Apenas falar não exige compromisso de fazer. Arnaldo Jabor, por exemplo, é admirável na arte de denunciar e instigar o ouvinte ou leitor à revolta. Que ninguém ache que, apenas por isso, ele esteja habilitado à ação.

Eu mesmo acho que a queda dos juros vai ajudar as pequenas empresas, que o técnico Dunga deveria escalar o Alexandre Pato como titular e que minha empregada deveria passar menos o bife na frigideira. Enfim, deixem-me aproveitar minha posição de jornalista-comentarista-intrometido para melhorar o mundo. Assim serei reconhecido no Brasil, sem precisar arriscar minha cabeça em algo que não sei fazer.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Meu arcaico antivírus...

...contra gripe suína-cibernética.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Nossos ancestrais




Dois jornalistas do Rio de Janeiro, dois de São Paulo, três paraenses, um filé de pescada amarela na mesa e eu. Numa janta no município de Breves, Marajó, o papo girava em torno de assuntos triviais para nós, comunicólogos intelequituais, como crise internacional, crise no senado e crise na televisão brasileira.

Por acaso, uma das jornalistas de São Paulo, de 54 anos - a mais velha à mesa - passou a contar a história de seus pais, avôs e bisavôs. Quem chegasse no meio da conversa daria por certo de que ela narrava um filme de ação em vez de contar a sobre a vida de seus ascendentes, de origem judaica.

- Meu avô era polonês, veio para o Brasil antes da Segunda Guerra Mundial. Quando Hitler invadiu a Polônia, o vô não acreditou e, contra os conselhos de todos os amigos, voltou para lá. Acabou sendo preso em um campo de concentração na Lituânia e morto durante a guerra.

O fotógrafo paraense e a repórter carioca, que falavam mal do programa No Limite em um diálogo a dois, deixaram o assunto de lado para voltar atenção à jornalista paulista de traços europeus e cabeleira volumosa.

- Quando fomos ao Museu da Replública com meu outro avô, ele se assustou e apontou para um daqueles carros do início do século passado, dizendo "eu costumava ir para a escola em um desses!" - contou, para risadas impressionadas de todos à mesa.

As boas histórias não eram só de ancestrais falecidos. A vida de sua mãe, Alice Brill, de 88 anos, também rende um bom roteiro cinematográfico. Fugindo do nazismo, ela foi trazida ao Brasil em 1934. Aqui, seguiu a carreira artística do pai - o avô da jornalista, o mesmo que morreu no campo de concentração. Fez dezenas de exposições de artes plásticas e fotografias. Hoje, é um nome conhecido na cena artística de São Paulo. É só checar no www.aipa.org.br/alice .

Ouvindo todo aquele lari-lari, em dado momento senti que era indispensável minha intervenção. Como todos estavam impressionados com aquelas historinhas sem graça, eu precisei falar um pouco sobre meus antigos. Mas não muito, para não causar discórdias.

- Meus pais são servidores públicos. Meu tio também era. Minha tia ainda é. Meu irmão mais velho também, assim como meu segundo irmão. Meu irmão mais novo acabou de passar num concurso e vai seguir no mesmo rumo...

Os olhares para mim eram impressionados. Ninguém mais queria saber sobre nazismo, judeus, guerra ou artes. Passei o resto da noite falando das beneces de uma vida mamando nas tetas do Estado, com os fins de semana de folga. Foi mal. Morram de inveja.

sábado, 1 de agosto de 2009

As aventuras do superjornalista comunitário




Quem vê hoje João Brownpress Waxnose Pinto, compenetrado escrevendo para o Jornal Impessoal, de sua colossal tiragem de 20 exemplares, nem imagina sua origem humilde e as dificuldades que enfrentou para chegar à fama na passagem onde mora, no conjunto Che Guevara, em Marituba.

Embora, assim como a mãe de Lula, tenha nascido analfabeto, João sempre quis ser jornalista. Enfrentou tudo para alcançar seu objetivo: desde a oposição da sua família de agricultores de Jacareacanga, município ao extremo sudoeste do Pará; até sua grave alergia ao cedilha.

Tal defeito de saúde não seria problema se seu pai, nascido na Guiana Inglesa, tivesse decidido ficar na terra natal, onde não se escreve o "ç". Que nada. Desde as primeiras séries, sempre que escrevia um texto, tinha que contar com a ajuda de um amigo inseparável, que colocava sempre a perninha do "c" nos casos de cedilha.

Um dia, a professora quis forçá-lo a escrever a palavra "cachaça" no quadro. O trauma foi tão grande que, além de não ter conseguido - tirou zero em português -, ainda se tornou alcoólatra.

O principal atrativo do seu jornal é a forma arcaica com que é produzido. Avesso às novas tecnologias, João ainda uma máquina de datilografar herdada de seu tio-avô. Tudo estratégico, na verdade. É lógico que esse ancestral é da família de seu pai. Foi a melhor forma de encontrar uma desculpa para a ausência de cedilhas.

A aversão a eletrônicos é quase um Transtorno Obsessivo Compulsivo, o que torna o periódico um tanto quanto contraproducente. Em vez de xerocados, os 20 exemplares são datilografados um por um.

Era mais tranquilo quando havia o patrocínio da mercearia da esquina. Com os dólares a mais, Waxnose pagava uma secretária para "bater" os demais 19 exemplares. O comerciozinho foi fechado pela Vigilância Sanitária por vender produtos fora da validade. Uma semana depois, o dono foi preso por envolvimento no tráfico de drogas. Que seja. O problema é que, agora, a datilografia dá mais trabalho que as entrevistas.

Alguém a fim de patrociná-lo?

TO BE CONTINUED...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Marapanim? Onde fica?




Essa sempre é a pergunta quando quando eu digo que passei um fim de semana em Marapanim, cidade a 140 quilômetros de Belém. Minha resposta mais simples é assim:

- Sabe Marudá?
- Sei, já estive lá três vezes.
- Poisé, faz parte de Marapanim.
- Ahhhh, legal.
- Crispim?
- Também conheço.
- Também faz parte de lá da mesma cidade.
- Aaaah sim!

A maior marca da cidade é o carimbó. Os moradores adoram proclamar que Marapanim é a capital mundial do estilo. E, de fato, esse tipo de música é tocado de um jeito muito melhor por lá. É diferente.





Alguns Marapanim's Facts:

- Em Marapanim, vendedores de fruta fazem lombada na marra para ter um ponto de venda para quem passa de carro;

- Em Marapanim, o locutor de rádio fala "e agora, são exatamente quase meio dia";

- Em Marapanim, urubu morre em colisão com pipa;

- Em Marapanim, há carros de churros com som tocando brega;

- Em Marapanim, há criança de dois anos tocando em grupo de carimbó;

- E velinha de 86 anos no mesmo ofício.





***

Sobre as Praias





A praia de Crispim fica a quase 20 quilômetros do centro da cidade. Ela é bem família. A extensão é enorme, mas a área habitável por veranistas - abrangida por barracas, cadeiras e guarda-sol - é curta, embora suficiente para a quantidade de pessoas que vai para lá.




Marudá, uns 13 quilômetros do centro, é outro esquema. Já é o point da garotada bregueira, de carro turbinado e popsom no bagageiro. Ao contrário de Crispim, não é bem uma área de praia diurna, mas sim de orla noturna, com muitos bares e restaurantes.





É de Marudá o principal ponto de partida para a mítica ilha de Algodoal. Esqueça Crispim e Marudá; lá é totalmente diferente. O público é reggeiro, gente alternativa, tatuada e, segundo as más línguas, maconheira.

Nos fins de semana de julho, os bares por lá têm bandas ao vivo durante o dia inteiro. Não há carros. As caminhadas, para quem não pagar por uma charrete, são extenuantes sob um sol infernal. As noites são incrivelmente bucólicas, místicas e prazerosas.

Talvez por ser tão diferente, Algodoal não faz parte de Marapanim. É administrada pela prefeitura de Maracanã.

Eu pensei em dizer que o Lago da Princesa não é muito diferente do Lago da Coca-cola, de Salinas, mas se eu fizesse isso, seria jurado de morte. Omito, assim, essa parte.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O jeans, as penetras e uma certa inexperiência




Tudo começou com o que parecia ser uma oportunidade imperdível. A mãe de Kathy, uma promotora de eventos, foi a responsável pelo casamento de do futebolista Roberto Carlos. Doida pra ir, ela recebeu um "não" da mãe, Raquel, sob mil justificativas pertinentes. Já resignada, recebeu lá pelas 9 horas da noite, uma ligação da mãe dizendo que a barra estava limpa, a cerimônia já havia passado e que ela poderia aparecer lá para a comilança, junto com sua amiga, Carol. A recomendação materna era apenas que as duas fingissem não conhecê-la e dissessem na entrada ser amigas de Gisele, irmã do Roberto Carlos - que era uma "simpatia de pessoa". Feito isso, entraram sem problemas e passaram a encher o bucho com nobres iguarias, ao som de um harmonioso pagodão típico de jogadores de futebol, nada condizente com o suntuoso ambiente do terraço da Daslu.

Um pecado mortal, contudo, complicou a história. Kathy vestia um informal jeans. Ela não teve tempo de se arrumar, pois foi avisada pela mãe muito em cima da hora. Na entrada, foi observada pela recepcionista, que avisou os seguranças: "fiquem de olho, tem uma moça de jeans, verifique quem é", disse. Outra moça da organização da festa abordou a dupla de penetras e lhes perguntou de quem eram convidadas. Pausa. Momento de tensão. De súbito o pagode interrompe e passa a tocar uma música sombria, dramática - não de verdade, mas na sensação das duas amigas. Carol fica corada de vergonha e a voz trava. Kathy olha para os lados, se estende um pouco para frente para chegar mais perto da recepcionista, como se fosse contar um segredo, e diz, caguejando:

- So...somos convidadas da Gisele...
- Falei com ela e ela disse que não as conhece - retruca a recepcionista, com educação e seriedade.





Neste momento, as amigas querem apertar um botão para ficar invisíveis. Se arrependem amargamente de ter ido à festa e têm vontade de implorar por piedade para não passarem vergonha mas, claro, não fazem isso, pois senão o mico seria muito maior. Kathy se arrepende de ter pedido à mãe para ter ido à festa. Carol não se perdoa por ter se metido na empreitada, se culpa por ter conhecido Kathy, de ter estudado no mesmo colégio que ela, de ter colado na prova de matemática da 5ª série, de ter mentido para os pais quando tinha 8 anos dizendo que estava doente só porque não queria ir para a aula.... Aproveitou também para se arrepender de ter nascido.

Não adiantou. Enquanto Kathy, com os olhos cheios de lágrimas, tentava ligar para o celular de sua mãe, um segurança enorme chegou. Em seguida, mais três seguranças, com uns três metros de altura. Outras quatro moças da recepção foram dar apoio, talvez para não deixar as meliantes tomarem uma atitude desastrada. Sem resposta materna, as amigas tiveram que sair como se fossem detentas, cercadas por oito pessoas de preto.

Durante o humilhante trajeto de saída, se sentindo observada, julgada, xingada e desprezada por todos os olhares desdenhados dos convidados, Kathy tentou reagir:

- Calma, estou ligando pra Raquel.
- O que ela tem a ver com isso? A Raquel não pode trazer amigas - rebate uma das recepcionistas que a cercava.

Já no elevador, só com três seguranças, um deles pergunta:

- Vocês são amigas da Raquel?
- Sou filha dela - responde Kathy.
- Ai, agora $%¨& - lamenta, olhando para os companheiros - Desculpe, só estávamos cumprindo ordens - diz às amigas penetras, tentando se justificar, mas sem poder desfazer o que era feito.

***

Ao abrirem-se as portas, quase o coração delas quase pula para fora. Mais um momento de tensão. Deram de cara com o noivo, Roberto Carlos, no alto de seu 1,68 metro de altura, que esperava o elevador para subir ao local da recepção. Em vez de passarem despercebidas, Roberto Carlos foi estranhamente solícito.

- Por que vocês já estão indo embora tão cedo? Ainda nem servimos a sobremesa...
- Err... - respondem Carol e Kathy, quase em uníssono, enquanto se entreolham.
- Sobe de novo, Márcia - disse, olhando para Carol, que ficou ainda mais sem ação ainda - ainda nem servimos a sobremesa. Vocês vão adorar - termina, pegando na mão de Carol e olhando para Kathy, sem conseguir desgrudar os olhos para as partes baixas da pobre, modeladas pelo finíssimo jeans.

De cara com o anfitrião famoso, as duas ficaram sem reação. Tentaram responder algo, mas apenas gaguejaram alguma coisa incompreensível. Se Roberto Carlos já não estivesse meio baleado pelo álcool, não teria confundido uma convidada com uma penetra ou, pelo menos, teria notado a gafe com a reação nervosa de Carol.

Antes de digerirem a situação, as amigas já não tinham mais saída; estavam subindo de elevador, de volta à recepção. Cada segundo que passava aumentava a gafe do noivo e a vergonha de Carol, caso decidisse dizer que tudo se tratava de um engano. Ambas não conseguiam prestar atenção nas soluções sugeridas - a custo de muito torpor - por Roberto Carlos para a atual crise mundial. Quando chegaram ao andar, resolveram encarnar as personagens e tentaram agir com naturalidade.

Foi melhor do que elas esperavam. Por sorte, a tal de "Márcia" não é conhecida de ninguém; apenas dos noivos. A mulher de Roberto Carlos, Mariana Luccon, tão porre quanto ele, achava que Márcia estava um pouco mudada demais, mas pensou que fosse culpa da bebida. Depois de conhecer a metade de toda a família dos noivos, Carol teve que virar atriz quando o noivo começava a contar histórias da visita dela à Turquia, onde ele jogou nas últimas temporadas.

- Lembra aquela vez que você caiu da escada e o vestido subiu? Todo mundo viu que sua calcinha era vermelha! - conta Roberto Carlos, gargalhando sozinho. Os ouvintes riam mais discretamente, enquanto a noiva dava sinais de desconforto com aquele papo.
- Ah, então ela é a Márcia de quem tu tanto falavas? Ela não era morena? Achei que fosse mais baixa e não assim, tão bonita - pergunta a mãe do noivo, antes que Carol conseguisse interromper para dar sua versão sobre o fato. Neste momento, a noiva de Roberto Carlos pede licença e se retira de forma brusca.
- É ela mesma, mamãe. Ela está um pouco diferente, mesmo. Marcia, você pintou o cabelo? - pergunta, apalpando a coxa esquerda de Kathy, entre um gole e outro de vodca.

Neste momento, o radar de Carol capta o perigo iminente. Enquanto Roberto Carlos contava alguma outra história maluca, as duas moças da frente começaram a cochichar de forma estranha, se entreolham, olham para ela, sorriem. De repente apontam um pouco mais para longe e a conversa fica mais excitada. O rapaz do lado também entra na empolgação. Em poucos segundos, pelo menos umas dez pessoas tentavam segurar o riso preocupado, olhando para a direção do banheiro. Quando Carol resolve esticar os olhos para lá, entendeu por que toda aquela agitação dos convidados com quem dividia a mesa. Uma mulher negra, feinha, um pouco baixa e que chamava pouca atenção vinha em direção à mesa em que estava Roberto Carlos, Kathy e Carol, fazendo as vezes de... Uma morena, baixa e não lá muito bonita. Só podia ser a tal de Márcia!.

A reação foi rápida e segura, como Carol nunca imaginou ser capaz de fazer. Pediu licença, se despediu de forma genérica, puxou Kathy para a direção do elevador. Mais uma vez Roberto Carlos, ainda mais bêbado, pedia para elas ficarem, dessa vez com um olhar ainda mais faminto por Kathy. Carol se desculpou e deu mais um puxão na amiga, fazendo-a escapar de um beijo do noivo porre. As duas entraram abruptamente no elevador com a tensão nas alturas. Na saída do saguão, nem olharam para trás, para não correr o risco de serem abordadas por mais algum alcoolizado, mesmo que fosse mais rico e famoso que o noivo. Só no carro puderam relaxar e rirem até não aguentarem mais ao imaginar como deve ter sido a situação de a verdadeira Márcia voltar do banheiro e descobrir que uma falsária se passou por ela.


OBS: Desde os últimos "***" é tudo mentira. Trata-se de uma versão fantasiosa da história, inventada por alguma mente ociosa. O que se sucedeu em seguida, na verdade, é bem menos emocionante. É mais ou menos assim:

***

[Depois de serem expulsas do salão com acompanhamento dos seguranças]. Já no hall térreo, com vontade de sumir o mais rápido possível, relaxar, tomar um café e esquecer que um dia o Roberto Carlos casou, abrem-se as portas do elevador com uma mulher chamando.

- Venham, não tem problema! - diz Raquel.
- Mãe, a gente passou uma humilhação, não acredito que tu deixou isso acontecer... - disse Kathy, entre muitos outros termos impublicáveis.
- Eu não quero voltar, não vou voltar... - interrompe Carol.
- Agora que estamos aqui vamos ficar sim - decreta Kathy.

Sem escolha, por estar de carona com Kathy, Carol cedeu. O fato de agora serem oficialmente convidadas não foi o suficiente para voltarem de cabeça erguida ao salão. A vontade de sair permaneceu até... A hora de ir embora.

sábado, 27 de junho de 2009

Uma capa de domingo




O fotógrafo Igor Mota, das ORM, conseguiu esta elogiadíssima imagem, durante matéria em Vigia. Não por acaso, a foto foi a capa do último domingo (20/06/09). Trata-se de uma competição de arremesso de peixes. O cara ia arremessando, enquanto o Igor ia fotografando, até conseguir o melhor momento. O problema é que, quando o material já havia "rendido" o suficiente e era hora de parar de fotografar, ele esqueceu de avisar o pescador.

"Muléqui, o cara ia jogando o peixe e eu só aqui, 'tchá, tchá' (onomatopeia para os cliques da câmera). Quando eu parei, virei e só senti a paulada na minha costa. O cara continuou jogando peixe e me acertou direitinho. Muléqui, doeu pra caramba!", conta Igor Marmota.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Ossos do Ofício



Ótima má notícia.



Não pelo insistente e previsível juramento de inocência, mas sim porque a vítima desistira de prestar queixa, um determinado sujeito detido por roubo estava prestes a ser liberado pela polícia. Sem vítima, não há esse tipo de registro. Como ele não era prioridade, ficava no canto da sala do delegado de plantão, na Seccional de São Brás, esperando seu destino.

Em dado momento, investigador e delegado começam a estranhar a sujeira da sala, naquela manhã de domingo. As lixeiras estavam transbordando e havia papéis espalhados pelo chão.

- Esse pessoal do serviço geral deve ter faltado o trabalho. Tá uma bagunça! - diz o delegado.

O investigador, sentindo que poderia ser vítima de um desvio de função - e ter que varrer tudo -, tem uma ideia brilhante.

- Ei, tu, aí! Tu tá com sorte hoje. Tu não vai ficar preso, porque a vítima não quis registrar ocorrência - disse, se dirigindo ao detido.
- Eu não fiz nada, eu. O cara viu que não era eu. Eu só vinha passando na hora e...
- Mas olha o seguinte; dá uma arrumada nisso aqui, que tá muito sujo. Começa por aquelas lixeiras ali.
- Sou um homem de bem, trabalhador, nunca me meti em confusão... - dizia, enquanto obedecia a ordem.
- Agora dá uma varridinha lá. Isso. É bem melhor fazer esse serviço do que ficar preso, não achas?
- É... - responde o quase-indiciado, com verdadeiro alívio na alma.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Never give up! Unless...




Nunca desista de seus sonhos. A não ser que eles estejam distantes demais. Em vez de agonizar, nem sonhe muito. Sonhe raso. Sonhe realizável. Aliás, dê preferência para sonhar o que já está realizado. Não dá trabalho nenhum e, ao mesmo tempo, você pode se orgulhar de estar realizando um sonho.

Para alguns, a dor de se alcançar o sonho é maior do que o prazer do sonho alcançado. Às vezes, realizar o sonho é, na verdade, uma mera questão de honra. Já nem prazer há de gozo, depois de tanto sacrifício para chegar lá.

Muitos vivem a escravidão dos sonhos. Correm sempre atrás de um sonho. Quando alcançam, criam um outro alvo maior ainda, quase inalcançável e quando chegam lá...continuam até se estabacarem no chão depois de uma grande desilusão.

Essa história de "sonhe, voe, flutueee!" é papo de livro de auto ajuda que quer empolgar menininhas recém saídas da adolescência. Sonhar demais é estar eternamente insatisfeito. A verdade nua não fica tão bonita nos lábios de um animador de auditório.

Meu sonho é não ter grandes sonhos. Assim, vivo o hoje, feliz, agradecido, satisfeito. E, os poucos sonhos que me restam, não são questão de vida ou morte. O mais importante já tenho; minha vida agora e meus sonhos atuais sendo realizados neste exato momento. O que vier é lucro.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Volteiiiii




Seis meses se passaram desde minha última atualização neste blog. No começo, as intervenções de amigos e conhecidos eram singelas. "Tu nunca mais postou nada, poxa..." ou "quando é que eu vou ver a 'Glória do Flato 2'?". Um leitor mais ardoroso chegou a dizer que toda hora entrava no blog e dava F5 pra ver se havia alguma novidade.

Com o passar das semanas, o carinho dos fãs foi sendo substituído por comentários ácidos. Daí, foi se transformando em um certo rancor até o ponto de eu não poder mais sair de casa sem uns três guarda-costas. Tive que trocar de celular para não ser importunado por uma horda de ávidos acompanhantes do blog. Quando não era seguido pelas ruas, me sentia como se estivesse sendo.

Até na minha família houve constrangimento. Passei a ser uma vergonha para minha mãe, a prolífica Cristina Faraon, do fecundo "cadeaminhavida.blogspot.com", atualizado a cada espirro. O único que não tocou no assunto foi meu pai. Para ele, a pausa no blog foi apenas uma esperança de que eu engatilhasse nos estudos. Tadinho. Fica para a próxima.

Pela total falta de opção, tive que voltar a atualizar o blog. Como ainda prezo pela minha saúde e temo retaliações de fãs descontrolados, eis-me aqui.

De qualquer forma, se você leu este texto, é um desocupado. Mas, além disso, é um potencial acompanhante do blog. Fico feliz por haver outros ociosos no mundo como eu. Juntos venceremos.

Obrigado.

Até o próximo post, daqui uns três meses...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

domingo, 26 de outubro de 2008

Precisa-se de um herói


Tatuagem num braço, cicatriz noutro, ambos gesticulando muito e uma voz grave, anasalada e cheia de sotaque, contando estripulias que pareciam ter sido feitas no Afeganistão, durante a invasão dos Estados Unidos, há uns seis anos.

- Oh, man, teve uma hora que eu fiquei sozinho, cercado de enemies, com tiros de todos os lados.
- Sério?
- Sério. Pior que só estava com uma pistola, enquanto que os caras andavam para cima e para baixo com metralhadoras.
- Não brinca!
- Yeah, its true...

E assim, o americano Steve continuava falando de suas aventuras, enquanto que a platéia na parada de ônibus começava a ficar atenta ao papo. A velinha, apoiada na sombrinha como se fosse uma bengala, esticou o ouvido para não perder nada. O estudante de baixa estatura, que carregava seus livros e caderno alternando entre o braço direito e o esquerdo quando um deles cansava, ficava impressionado à medida com que o grandão falava de sua coragem.

Quando o papo começou a ficar sangrento, quase todos os donos dos 45 ouvidos que escutavam a conversa (uma das pessoas tinha a orelha amputada) fizeram cara de nojo.

- Eu vi um dos nossos caras ser espancado com punches n kicks e uma barra de ferro quente no...ear...

- Orelha

- Yeah, orelha

- Ughnrr!! - exclamou o desorelhado - eu sei como é isso!

Neste momento, uma dona-de-casa tapou com as mãos os ouvidos de sua filha e saiu de lá reclamando.

Indiferente ao grunhido e à reprovação da senhora, o gringo continuou falando de sua aventura. Dessa vez, com a voz ainda mais grossa e em tom de suspense, disse quando foi notado, escondido atrás de uma mureta, pelos torturadores.

O coração da platéia começou a bater forte. Uma freira até fez o sinal da cruz, com medo do que iria acontecer com o contador da história, ignorando que o cara estava ali, vivinho da silva. Já haviam passado três de seus ônibus, mas ela preferiu ficar ali para saber o desfecho.

Avesso àquela bagunça que se formava, Steve cortou bruscamente a história, dizendo ao seu amigo que seu ônibus já vinha passando. O amigo concordou, mas, antes que conseguisse se despedir, foi interrompido pelos protestos dos 62 ouvidos que escutavam atentamente a história (a essa altura o desorelhado já tinha pego seu ônibus).

Puxando a manga de sua camisa, dezenas insistiam que ele continuasse falando. Mas o cara só cedeu mesmo porque a galera fez uma barreira humana de forma que o motorista do ônibus nem conseguiu ver seu sinal.

"Como você conseguiu escapar?" e "você tem alguma seqüela da guerra?" eram as perguntas mais frequentes. Ao ver que outro ônibus vinha passando, já meio sem paciência, porque estava atrasado para o trabalho, Steve resolveu desfazer o mal entendido e foi direto ao assunto:

- Nessa altura, o diretor gritou "corta! corta!" e me dispensou, porque achou que eu não servia para o papel.
- Aaaaaaaah! Fala sério, não desconverse! A gente quer saber o que aconteceu lá quando você estava lá! - Gritou um baixinho lá do fundo, endossado pela galera da frente. Ninguém queria acreditar que tudo aquilo fora mero enredo de filme.
- Foi mal, people, i gotta go - disse, enquanto subia os degraus do ônibus, já impaciente com aquela aglomeração.

O mesmo baixinho foi se enfiltrando pelo meio do pessoal até conseguir subir no mesmo ônibus, já em movimento. Todo mundo estranhou, mas ele justificou:

- Eu já perdi minha aula, mesmo...

Assim, sem querer, o baixinho acabou estimulando muita gente a mudar de rota e entrar no mesmo coletivo, só para continuar ouvindo a história. Ao ver que não conseguiria se livrar daqueles carrapatos, Steve resolveu radicalizar. Já que ninguém queria acreditar que a história era apenas o teste de ator para um filme, o que era a mais pura verdade, ele passou a inventar mil aloprações. Mas, em vez de as pessoas desistirem de perturbar, só ficavam ainda mais hipnotizadas.

- Aí uns dez afegãos me agarraram, mas eu consegui me livrar de todos. Eu só tinha cinco munições, mas foi o suficiente, porque cada um dos tiros atravessou um dos soltados e parou no outro - inventava.
- Nossa, ele é bom mesmo! - exclamou o baixinho, mais uma vez reforçado pelos demais passageiros.

A perseguição continuou durante toda a viagem e, o que eram 62 orelhas escutando, ao descer do ônibus passou a ser 87 (o desorelhado, que andava por acaso próximo à parada do trabalho de Steve, resolveu se juntar novamente). Da parada até a fachada do órgão público onde Steve trabalha, formou-se praticamente uma procissão. E ninguém se desestimulava pelo fato de as histórias ficarem cada vez mais mirabolantes.

- Daí eu abati um helicópter com um estilingue - disse o aspirante a Chuck Norris.

- Meu herói! - fala uma mocinha de uns 15 anos, já até pedindo autógrafo.

Entrar no trabalho sem aquela turba descontrolada, para Steve, foi como tirar 200 quilos das costas. Durante a manhã toda, ele pôde se concentrar no trabalho e esquecer o que acontecera mais cedo. Só que, por acaso, enquanto estava almoçando, olhou pela janela e notou que os tresloucados ainda estavam lá, em frente ao seu trabalho. Pior, em número muito maior.

Por alguns minutos, Steve se sentou atônito, desejando ter um helicóptero para voltar para casa sem contato com aquele bando de loucos. Mas, de repente, ele refletiu um pouco e decidiu parar de remar contra a maré. Ao sair do trabalho, fez umpronunciamento quase solene à multidão que lhe esperava.

- Gente, vocês sabem que eu estou cansado e preciso ir para casa...

- Aaaaaaaaaahhhh!!! - exclamou a multidão, antes que ele pudesse completar a frase.

- Mas, calma. No próximo sábado eu vou continuar contando sobre quando eu acertei com minha pistola um afegão a um quilômetro de distância - disse, já se acostumando com o cinismo, já que sua pistola não tem alcance nem de 400 metros. - A entrada vai custar só cinco reais. Levem seus amigos.

Ao dizer isso, o americano entrou com uma certa dificuldade em um táxi e voltou para casa.

No dia marcado, o número de pessoas que foi assisti-lo contando sua fictícia história no Afeganistão era tão grande que ele teve que, em cima da hora, negociar um outro salão maior, para que todo mundo pudesse entrar. Ainda teve quem ficasse em pé, mas não quem saísse insatisfeito.

Semana após semana o número de pessoas aumentou tanto que o preço do ingresso aumentou para R$ 10 e depois para R$ 15. Steve chegou a fazer duas sessões, antes de alugar um espaço para 4 mil pessoas sentadas. Em pouco tempo, já estava dando entrevista na TV e até recebendo medalha de honra na Assembléia Legislativa.

Também não demorou para que ele tivesse a idéia de se candidatar como vereador da cidade, tal o sucesso. Ao final dos quatro anos de mandato, resolveu concorrer à prefeitura. O vice de sua chapa era o mesmo desorelhado, que agora fazia parte da história - passou a ser ele o suposto soldado torturado pelos afegãos.

A ascensão de Steve não ocorreu sem dificuldades. Surgiram rumores - vindos da oposição, claro - de que tudo não passava de uma farsa e ele nunca tivesse participado da guerra no Afeganistão. Nada que abalasse sua meteórica carreira. Para a maluquice do povo, só um herói retardado.