quarta-feira, 29 de julho de 2009
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Marapanim? Onde fica?

Essa sempre é a pergunta quando quando eu digo que passei um fim de semana em Marapanim, cidade a 140 quilômetros de Belém. Minha resposta mais simples é assim:
- Sabe Marudá?
- Sei, já estive lá três vezes.
- Poisé, faz parte de Marapanim.
- Ahhhh, legal.
- Crispim?
- Também conheço.
- Também faz parte de lá da mesma cidade.
- Aaaah sim!
A maior marca da cidade é o carimbó. Os moradores adoram proclamar que Marapanim é a capital mundial do estilo. E, de fato, esse tipo de música é tocado de um jeito muito melhor por lá. É diferente.

Alguns Marapanim's Facts:
- Em Marapanim, vendedores de fruta fazem lombada na marra para ter um ponto de venda para quem passa de carro;
- Em Marapanim, o locutor de rádio fala "e agora, são exatamente quase meio dia";
- Em Marapanim, urubu morre em colisão com pipa;
- Em Marapanim, há carros de churros com som tocando brega;
- Em Marapanim, há criança de dois anos tocando em grupo de carimbó;
- E velinha de 86 anos no mesmo ofício.

***
Sobre as Praias

A praia de Crispim fica a quase 20 quilômetros do centro da cidade. Ela é bem família. A extensão é enorme, mas a área habitável por veranistas - abrangida por barracas, cadeiras e guarda-sol - é curta, embora suficiente para a quantidade de pessoas que vai para lá.

Marudá, uns 13 quilômetros do centro, é outro esquema. Já é o point da garotada bregueira, de carro turbinado e popsom no bagageiro. Ao contrário de Crispim, não é bem uma área de praia diurna, mas sim de orla noturna, com muitos bares e restaurantes.

É de Marudá o principal ponto de partida para a mítica ilha de Algodoal. Esqueça Crispim e Marudá; lá é totalmente diferente. O público é reggeiro, gente alternativa, tatuada e, segundo as más línguas, maconheira.
Nos fins de semana de julho, os bares por lá têm bandas ao vivo durante o dia inteiro. Não há carros. As caminhadas, para quem não pagar por uma charrete, são extenuantes sob um sol infernal. As noites são incrivelmente bucólicas, místicas e prazerosas.
Talvez por ser tão diferente, Algodoal não faz parte de Marapanim. É administrada pela prefeitura de Maracanã.
Eu pensei em dizer que o Lago da Princesa não é muito diferente do Lago da Coca-cola, de Salinas, mas se eu fizesse isso, seria jurado de morte. Omito, assim, essa parte.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
O jeans, as penetras e uma certa inexperiência

Tudo começou com o que parecia ser uma oportunidade imperdível. A mãe de Kathy, uma promotora de eventos, foi a responsável pelo casamento de do futebolista Roberto Carlos. Doida pra ir, ela recebeu um "não" da mãe, Raquel, sob mil justificativas pertinentes. Já resignada, recebeu lá pelas 9 horas da noite, uma ligação da mãe dizendo que a barra estava limpa, a cerimônia já havia passado e que ela poderia aparecer lá para a comilança, junto com sua amiga, Carol. A recomendação materna era apenas que as duas fingissem não conhecê-la e dissessem na entrada ser amigas de Gisele, irmã do Roberto Carlos - que era uma "simpatia de pessoa". Feito isso, entraram sem problemas e passaram a encher o bucho com nobres iguarias, ao som de um harmonioso pagodão típico de jogadores de futebol, nada condizente com o suntuoso ambiente do terraço da Daslu.
Um pecado mortal, contudo, complicou a história. Kathy vestia um informal jeans. Ela não teve tempo de se arrumar, pois foi avisada pela mãe muito em cima da hora. Na entrada, foi observada pela recepcionista, que avisou os seguranças: "fiquem de olho, tem uma moça de jeans, verifique quem é", disse. Outra moça da organização da festa abordou a dupla de penetras e lhes perguntou de quem eram convidadas. Pausa. Momento de tensão. De súbito o pagode interrompe e passa a tocar uma música sombria, dramática - não de verdade, mas na sensação das duas amigas. Carol fica corada de vergonha e a voz trava. Kathy olha para os lados, se estende um pouco para frente para chegar mais perto da recepcionista, como se fosse contar um segredo, e diz, caguejando:
- So...somos convidadas da Gisele...
- Falei com ela e ela disse que não as conhece - retruca a recepcionista, com educação e seriedade.

Neste momento, as amigas querem apertar um botão para ficar invisíveis. Se arrependem amargamente de ter ido à festa e têm vontade de implorar por piedade para não passarem vergonha mas, claro, não fazem isso, pois senão o mico seria muito maior. Kathy se arrepende de ter pedido à mãe para ter ido à festa. Carol não se perdoa por ter se metido na empreitada, se culpa por ter conhecido Kathy, de ter estudado no mesmo colégio que ela, de ter colado na prova de matemática da 5ª série, de ter mentido para os pais quando tinha 8 anos dizendo que estava doente só porque não queria ir para a aula.... Aproveitou também para se arrepender de ter nascido.
Não adiantou. Enquanto Kathy, com os olhos cheios de lágrimas, tentava ligar para o celular de sua mãe, um segurança enorme chegou. Em seguida, mais três seguranças, com uns três metros de altura. Outras quatro moças da recepção foram dar apoio, talvez para não deixar as meliantes tomarem uma atitude desastrada. Sem resposta materna, as amigas tiveram que sair como se fossem detentas, cercadas por oito pessoas de preto.
Durante o humilhante trajeto de saída, se sentindo observada, julgada, xingada e desprezada por todos os olhares desdenhados dos convidados, Kathy tentou reagir:
- Calma, estou ligando pra Raquel.
- O que ela tem a ver com isso? A Raquel não pode trazer amigas - rebate uma das recepcionistas que a cercava.
Já no elevador, só com três seguranças, um deles pergunta:
- Vocês são amigas da Raquel?
- Sou filha dela - responde Kathy.
- Ai, agora $%¨& - lamenta, olhando para os companheiros - Desculpe, só estávamos cumprindo ordens - diz às amigas penetras, tentando se justificar, mas sem poder desfazer o que era feito.
***
Ao abrirem-se as portas, quase o coração delas quase pula para fora. Mais um momento de tensão. Deram de cara com o noivo, Roberto Carlos, no alto de seu 1,68 metro de altura, que esperava o elevador para subir ao local da recepção. Em vez de passarem despercebidas, Roberto Carlos foi estranhamente solícito.
- Por que vocês já estão indo embora tão cedo? Ainda nem servimos a sobremesa...
- Err... - respondem Carol e Kathy, quase em uníssono, enquanto se entreolham.
- Sobe de novo, Márcia - disse, olhando para Carol, que ficou ainda mais sem ação ainda - ainda nem servimos a sobremesa. Vocês vão adorar - termina, pegando na mão de Carol e olhando para Kathy, sem conseguir desgrudar os olhos para as partes baixas da pobre, modeladas pelo finíssimo jeans.
De cara com o anfitrião famoso, as duas ficaram sem reação. Tentaram responder algo, mas apenas gaguejaram alguma coisa incompreensível. Se Roberto Carlos já não estivesse meio baleado pelo álcool, não teria confundido uma convidada com uma penetra ou, pelo menos, teria notado a gafe com a reação nervosa de Carol.
Antes de digerirem a situação, as amigas já não tinham mais saída; estavam subindo de elevador, de volta à recepção. Cada segundo que passava aumentava a gafe do noivo e a vergonha de Carol, caso decidisse dizer que tudo se tratava de um engano. Ambas não conseguiam prestar atenção nas soluções sugeridas - a custo de muito torpor - por Roberto Carlos para a atual crise mundial. Quando chegaram ao andar, resolveram encarnar as personagens e tentaram agir com naturalidade.
Foi melhor do que elas esperavam. Por sorte, a tal de "Márcia" não é conhecida de ninguém; apenas dos noivos. A mulher de Roberto Carlos, Mariana Luccon, tão porre quanto ele, achava que Márcia estava um pouco mudada demais, mas pensou que fosse culpa da bebida. Depois de conhecer a metade de toda a família dos noivos, Carol teve que virar atriz quando o noivo começava a contar histórias da visita dela à Turquia, onde ele jogou nas últimas temporadas.
- Lembra aquela vez que você caiu da escada e o vestido subiu? Todo mundo viu que sua calcinha era vermelha! - conta Roberto Carlos, gargalhando sozinho. Os ouvintes riam mais discretamente, enquanto a noiva dava sinais de desconforto com aquele papo.
- Ah, então ela é a Márcia de quem tu tanto falavas? Ela não era morena? Achei que fosse mais baixa e não assim, tão bonita - pergunta a mãe do noivo, antes que Carol conseguisse interromper para dar sua versão sobre o fato. Neste momento, a noiva de Roberto Carlos pede licença e se retira de forma brusca.
- É ela mesma, mamãe. Ela está um pouco diferente, mesmo. Marcia, você pintou o cabelo? - pergunta, apalpando a coxa esquerda de Kathy, entre um gole e outro de vodca.
Neste momento, o radar de Carol capta o perigo iminente. Enquanto Roberto Carlos contava alguma outra história maluca, as duas moças da frente começaram a cochichar de forma estranha, se entreolham, olham para ela, sorriem. De repente apontam um pouco mais para longe e a conversa fica mais excitada. O rapaz do lado também entra na empolgação. Em poucos segundos, pelo menos umas dez pessoas tentavam segurar o riso preocupado, olhando para a direção do banheiro. Quando Carol resolve esticar os olhos para lá, entendeu por que toda aquela agitação dos convidados com quem dividia a mesa. Uma mulher negra, feinha, um pouco baixa e que chamava pouca atenção vinha em direção à mesa em que estava Roberto Carlos, Kathy e Carol, fazendo as vezes de... Uma morena, baixa e não lá muito bonita. Só podia ser a tal de Márcia!.
A reação foi rápida e segura, como Carol nunca imaginou ser capaz de fazer. Pediu licença, se despediu de forma genérica, puxou Kathy para a direção do elevador. Mais uma vez Roberto Carlos, ainda mais bêbado, pedia para elas ficarem, dessa vez com um olhar ainda mais faminto por Kathy. Carol se desculpou e deu mais um puxão na amiga, fazendo-a escapar de um beijo do noivo porre. As duas entraram abruptamente no elevador com a tensão nas alturas. Na saída do saguão, nem olharam para trás, para não correr o risco de serem abordadas por mais algum alcoolizado, mesmo que fosse mais rico e famoso que o noivo. Só no carro puderam relaxar e rirem até não aguentarem mais ao imaginar como deve ter sido a situação de a verdadeira Márcia voltar do banheiro e descobrir que uma falsária se passou por ela.
OBS: Desde os últimos "***" é tudo mentira. Trata-se de uma versão fantasiosa da história, inventada por alguma mente ociosa. O que se sucedeu em seguida, na verdade, é bem menos emocionante. É mais ou menos assim:
***
[Depois de serem expulsas do salão com acompanhamento dos seguranças]. Já no hall térreo, com vontade de sumir o mais rápido possível, relaxar, tomar um café e esquecer que um dia o Roberto Carlos casou, abrem-se as portas do elevador com uma mulher chamando.
- Venham, não tem problema! - diz Raquel.
- Mãe, a gente passou uma humilhação, não acredito que tu deixou isso acontecer... - disse Kathy, entre muitos outros termos impublicáveis.
- Eu não quero voltar, não vou voltar... - interrompe Carol.
- Agora que estamos aqui vamos ficar sim - decreta Kathy.
Sem escolha, por estar de carona com Kathy, Carol cedeu. O fato de agora serem oficialmente convidadas não foi o suficiente para voltarem de cabeça erguida ao salão. A vontade de sair permaneceu até... A hora de ir embora.
sábado, 27 de junho de 2009
Uma capa de domingo
.jpg)
O fotógrafo Igor Mota, das ORM, conseguiu esta elogiadíssima imagem, durante matéria em Vigia. Não por acaso, a foto foi a capa do último domingo (20/06/09). Trata-se de uma competição de arremesso de peixes. O cara ia arremessando, enquanto o Igor ia fotografando, até conseguir o melhor momento. O problema é que, quando o material já havia "rendido" o suficiente e era hora de parar de fotografar, ele esqueceu de avisar o pescador.
"Muléqui, o cara ia jogando o peixe e eu só aqui, 'tchá, tchá' (onomatopeia para os cliques da câmera). Quando eu parei, virei e só senti a paulada na minha costa. O cara continuou jogando peixe e me acertou direitinho. Muléqui, doeu pra caramba!", conta Igor Marmota.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Ossos do Ofício

Ótima má notícia.
Não pelo insistente e previsível juramento de inocência, mas sim porque a vítima desistira de prestar queixa, um determinado sujeito detido por roubo estava prestes a ser liberado pela polícia. Sem vítima, não há esse tipo de registro. Como ele não era prioridade, ficava no canto da sala do delegado de plantão, na Seccional de São Brás, esperando seu destino.
Em dado momento, investigador e delegado começam a estranhar a sujeira da sala, naquela manhã de domingo. As lixeiras estavam transbordando e havia papéis espalhados pelo chão.
- Esse pessoal do serviço geral deve ter faltado o trabalho. Tá uma bagunça! - diz o delegado.
O investigador, sentindo que poderia ser vítima de um desvio de função - e ter que varrer tudo -, tem uma ideia brilhante.
- Ei, tu, aí! Tu tá com sorte hoje. Tu não vai ficar preso, porque a vítima não quis registrar ocorrência - disse, se dirigindo ao detido.
- Eu não fiz nada, eu. O cara viu que não era eu. Eu só vinha passando na hora e...
- Mas olha o seguinte; dá uma arrumada nisso aqui, que tá muito sujo. Começa por aquelas lixeiras ali.
- Sou um homem de bem, trabalhador, nunca me meti em confusão... - dizia, enquanto obedecia a ordem.
- Agora dá uma varridinha lá. Isso. É bem melhor fazer esse serviço do que ficar preso, não achas?
- É... - responde o quase-indiciado, com verdadeiro alívio na alma.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Never give up! Unless...

Nunca desista de seus sonhos. A não ser que eles estejam distantes demais. Em vez de agonizar, nem sonhe muito. Sonhe raso. Sonhe realizável. Aliás, dê preferência para sonhar o que já está realizado. Não dá trabalho nenhum e, ao mesmo tempo, você pode se orgulhar de estar realizando um sonho.
Para alguns, a dor de se alcançar o sonho é maior do que o prazer do sonho alcançado. Às vezes, realizar o sonho é, na verdade, uma mera questão de honra. Já nem prazer há de gozo, depois de tanto sacrifício para chegar lá.
Muitos vivem a escravidão dos sonhos. Correm sempre atrás de um sonho. Quando alcançam, criam um outro alvo maior ainda, quase inalcançável e quando chegam lá...continuam até se estabacarem no chão depois de uma grande desilusão.
Essa história de "sonhe, voe, flutueee!" é papo de livro de auto ajuda que quer empolgar menininhas recém saídas da adolescência. Sonhar demais é estar eternamente insatisfeito. A verdade nua não fica tão bonita nos lábios de um animador de auditório.
Meu sonho é não ter grandes sonhos. Assim, vivo o hoje, feliz, agradecido, satisfeito. E, os poucos sonhos que me restam, não são questão de vida ou morte. O mais importante já tenho; minha vida agora e meus sonhos atuais sendo realizados neste exato momento. O que vier é lucro.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Volteiiiii

Seis meses se passaram desde minha última atualização neste blog. No começo, as intervenções de amigos e conhecidos eram singelas. "Tu nunca mais postou nada, poxa..." ou "quando é que eu vou ver a 'Glória do Flato 2'?". Um leitor mais ardoroso chegou a dizer que toda hora entrava no blog e dava F5 pra ver se havia alguma novidade.
Com o passar das semanas, o carinho dos fãs foi sendo substituído por comentários ácidos. Daí, foi se transformando em um certo rancor até o ponto de eu não poder mais sair de casa sem uns três guarda-costas. Tive que trocar de celular para não ser importunado por uma horda de ávidos acompanhantes do blog. Quando não era seguido pelas ruas, me sentia como se estivesse sendo.
Até na minha família houve constrangimento. Passei a ser uma vergonha para minha mãe, a prolífica Cristina Faraon, do fecundo "cadeaminhavida.blogspot.com", atualizado a cada espirro. O único que não tocou no assunto foi meu pai. Para ele, a pausa no blog foi apenas uma esperança de que eu engatilhasse nos estudos. Tadinho. Fica para a próxima.
Pela total falta de opção, tive que voltar a atualizar o blog. Como ainda prezo pela minha saúde e temo retaliações de fãs descontrolados, eis-me aqui.
De qualquer forma, se você leu este texto, é um desocupado. Mas, além disso, é um potencial acompanhante do blog. Fico feliz por haver outros ociosos no mundo como eu. Juntos venceremos.
Obrigado.
Até o próximo post, daqui uns três meses...
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
domingo, 26 de outubro de 2008
Precisa-se de um herói
Tatuagem num braço, cicatriz noutro, ambos gesticulando muito e uma voz grave, anasalada e cheia de sotaque, contando estripulias que pareciam ter sido feitas no Afeganistão, durante a invasão dos Estados Unidos, há uns seis anos.
- Oh, man, teve uma hora que eu fiquei sozinho, cercado de enemies, com tiros de todos os lados.
- Sério?
- Sério. Pior que só estava com uma pistola, enquanto que os caras andavam para cima e para baixo com metralhadoras.
- Não brinca!
- Yeah, its true...
E assim, o americano Steve continuava falando de suas aventuras, enquanto que a platéia na parada de ônibus começava a ficar atenta ao papo. A velinha, apoiada na sombrinha como se fosse uma bengala, esticou o ouvido para não perder nada. O estudante de baixa estatura, que carregava seus livros e caderno alternando entre o braço direito e o esquerdo quando um deles cansava, ficava impressionado à medida com que o grandão falava de sua coragem.
Quando o papo começou a ficar sangrento, quase todos os donos dos 45 ouvidos que escutavam a conversa (uma das pessoas tinha a orelha amputada) fizeram cara de nojo.
- Eu vi um dos nossos caras ser espancado com punches n kicks e uma barra de ferro quente no...ear...
- Orelha
- Yeah, orelha
- Ughnrr!! - exclamou o desorelhado - eu sei como é isso!
Neste momento, uma dona-de-casa tapou com as mãos os ouvidos de sua filha e saiu de lá reclamando.
Indiferente ao grunhido e à reprovação da senhora, o gringo continuou falando de sua aventura. Dessa vez, com a voz ainda mais grossa e em tom de suspense, disse quando foi notado, escondido atrás de uma mureta, pelos torturadores.
O coração da platéia começou a bater forte. Uma freira até fez o sinal da cruz, com medo do que iria acontecer com o contador da história, ignorando que o cara estava ali, vivinho da silva. Já haviam passado três de seus ônibus, mas ela preferiu ficar ali para saber o desfecho.
Avesso àquela bagunça que se formava, Steve cortou bruscamente a história, dizendo ao seu amigo que seu ônibus já vinha passando. O amigo concordou, mas, antes que conseguisse se despedir, foi interrompido pelos protestos dos 62 ouvidos que escutavam atentamente a história (a essa altura o desorelhado já tinha pego seu ônibus).
Puxando a manga de sua camisa, dezenas insistiam que ele continuasse falando. Mas o cara só cedeu mesmo porque a galera fez uma barreira humana de forma que o motorista do ônibus nem conseguiu ver seu sinal.
"Como você conseguiu escapar?" e "você tem alguma seqüela da guerra?" eram as perguntas mais frequentes. Ao ver que outro ônibus vinha passando, já meio sem paciência, porque estava atrasado para o trabalho, Steve resolveu desfazer o mal entendido e foi direto ao assunto:
- Nessa altura, o diretor gritou "corta! corta!" e me dispensou, porque achou que eu não servia para o papel.
- Aaaaaaaah! Fala sério, não desconverse! A gente quer saber o que aconteceu lá quando você estava lá! - Gritou um baixinho lá do fundo, endossado pela galera da frente. Ninguém queria acreditar que tudo aquilo fora mero enredo de filme.
- Foi mal, people, i gotta go - disse, enquanto subia os degraus do ônibus, já impaciente com aquela aglomeração.
O mesmo baixinho foi se enfiltrando pelo meio do pessoal até conseguir subir no mesmo ônibus, já em movimento. Todo mundo estranhou, mas ele justificou:
- Eu já perdi minha aula, mesmo...
Assim, sem querer, o baixinho acabou estimulando muita gente a mudar de rota e entrar no mesmo coletivo, só para continuar ouvindo a história. Ao ver que não conseguiria se livrar daqueles carrapatos, Steve resolveu radicalizar. Já que ninguém queria acreditar que a história era apenas o teste de ator para um filme, o que era a mais pura verdade, ele passou a inventar mil aloprações. Mas, em vez de as pessoas desistirem de perturbar, só ficavam ainda mais hipnotizadas.
- Aí uns dez afegãos me agarraram, mas eu consegui me livrar de todos. Eu só tinha cinco munições, mas foi o suficiente, porque cada um dos tiros atravessou um dos soltados e parou no outro - inventava.
- Nossa, ele é bom mesmo! - exclamou o baixinho, mais uma vez reforçado pelos demais passageiros.
A perseguição continuou durante toda a viagem e, o que eram 62 orelhas escutando, ao descer do ônibus passou a ser 87 (o desorelhado, que andava por acaso próximo à parada do trabalho de Steve, resolveu se juntar novamente). Da parada até a fachada do órgão público onde Steve trabalha, formou-se praticamente uma procissão. E ninguém se desestimulava pelo fato de as histórias ficarem cada vez mais mirabolantes.
- Daí eu abati um helicópter com um estilingue - disse o aspirante a Chuck Norris.
- Meu herói! - fala uma mocinha de uns 15 anos, já até pedindo autógrafo.
Entrar no trabalho sem aquela turba descontrolada, para Steve, foi como tirar 200 quilos das costas. Durante a manhã toda, ele pôde se concentrar no trabalho e esquecer o que acontecera mais cedo. Só que, por acaso, enquanto estava almoçando, olhou pela janela e notou que os tresloucados ainda estavam lá, em frente ao seu trabalho. Pior, em número muito maior.
Por alguns minutos, Steve se sentou atônito, desejando ter um helicóptero para voltar para casa sem contato com aquele bando de loucos. Mas, de repente, ele refletiu um pouco e decidiu parar de remar contra a maré. Ao sair do trabalho, fez umpronunciamento quase solene à multidão que lhe esperava.
- Gente, vocês sabem que eu estou cansado e preciso ir para casa...
- Aaaaaaaaaahhhh!!! - exclamou a multidão, antes que ele pudesse completar a frase.
- Mas, calma. No próximo sábado eu vou continuar contando sobre quando eu acertei com minha pistola um afegão a um quilômetro de distância - disse, já se acostumando com o cinismo, já que sua pistola não tem alcance nem de 400 metros. - A entrada vai custar só cinco reais. Levem seus amigos.
Ao dizer isso, o americano entrou com uma certa dificuldade em um táxi e voltou para casa.
No dia marcado, o número de pessoas que foi assisti-lo contando sua fictícia história no Afeganistão era tão grande que ele teve que, em cima da hora, negociar um outro salão maior, para que todo mundo pudesse entrar. Ainda teve quem ficasse em pé, mas não quem saísse insatisfeito.
Semana após semana o número de pessoas aumentou tanto que o preço do ingresso aumentou para R$ 10 e depois para R$ 15. Steve chegou a fazer duas sessões, antes de alugar um espaço para 4 mil pessoas sentadas. Em pouco tempo, já estava dando entrevista na TV e até recebendo medalha de honra na Assembléia Legislativa.
Também não demorou para que ele tivesse a idéia de se candidatar como vereador da cidade, tal o sucesso. Ao final dos quatro anos de mandato, resolveu concorrer à prefeitura. O vice de sua chapa era o mesmo desorelhado, que agora fazia parte da história - passou a ser ele o suposto soldado torturado pelos afegãos.
A ascensão de Steve não ocorreu sem dificuldades. Surgiram rumores - vindos da oposição, claro - de que tudo não passava de uma farsa e ele nunca tivesse participado da guerra no Afeganistão. Nada que abalasse sua meteórica carreira. Para a maluquice do povo, só um herói retardado.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
A glória do peido

Em que momento podemos dizer que duas pessoas se tornaram íntimas? A verdade é que há apenas um marco para o início da intimidade: o peido. Após a primeira flatulência, devidamente cheirada por ambas as partes, as almas se ligam de uma forma como nunca dantes. Nem o arroto, por mais barulhento que seja, tem esse poder. Até porque ele normalmente é dado após perdida a virgindade do pum.
Contudo, é necessário cuidado. Um peido dado antes da hora pode afastar duas pessoas de maneira quase irreparável. No primeiro encontro, nem pensar! O gás intestinal deve ser lançado ao meio ambiente quando o relacionamento entra em monotonia e começa a faltar assunto.
A estréia costuma ser involuntária, claro. Já o segundo, sem querer querendo. Do terceiro em diante, o cara já faz força para sair com barulho. Há quem se aprofunde no assunto e participe de torneios de intensidade de pum e até corais de flatulência. Mas vá com calma, que isso não é para amadores.
A cerimônia para o primeiro pum só é necessária para de mulheres. Entre amigos homens, a coisa é diferente. Se os caras não soltam um peido decente depois de um mês, são todos boiolas. O pum está na essência da virilidade da alma masculina.
Em grupo de amigas, também é importante compartilhar o cheiro que vem de baixo. O processo é mais delicado. Muitas vezes, é necessário algumas doses de álcool para soltar a mulherada. Mas quem já viveu o momento de um pum debaixo do lençol testemunha que sua vida nunca mais foi a mesma.
Enfim, podemos resumir que:
"A intimidade é uma merda. O peido nos diz que estamos chegando lá".
domingo, 19 de outubro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Nós, os Robin Hoodis!

Mas nem é necessário tanto trabalho. Algumas pessoas se sentem bem depois de ficar com pena de um miserável na rua, ao mesmo tempo em que são incapazes de deixar de assistir uma novela para fazer um mero trabalho voluntário.
Ah, se não fossem os pobres! Nossas vidas nem mudariam tanto assim...
Bem, já falei demais
Fiz minha parte na campanha
Já posso dormir tranquilo, sabendo que, por isso, os miseráveis terão um futuro melhor
e com licença, que eu não posso perder o próximo capítulo da novela...
domingo, 12 de outubro de 2008
Feedback das celebridades

Confiram os comentários:
"O melhor blog do mundo", não diz Barak Obama
"Ah, Legal...", diz Willian Bonner, querendo dizer "tu é fresco?"
"É muito bacana!", diz Bill Gates, achando se tratar do blog do Philip Yancey
"Maravilhoso, explêndido!", exclama o lavador de carro Pedrinho da Esquina, depois de receber uma gorjeta decente e de aprender a falar essas palavras
"Tu é fresco?", pergunta João Gordo, querendo dizer "Ah, Legal..."
"Nunca na história do país houve um blog como esse", deveria dizer Lula
"Tá uma merda!", diria meu professor de jornalismo impresso
"Adoreeeeeeeeeei, ebinho!", diz mamãe
"Pra que um blog?", questiona meu irmão
"Quero te ver é estudando", sugere meu pai

